
Atemo-nos aos fatos. O caso Bruno é mais um capítulo de novela o qual todo mundo sabia como iria terminar. A cadência de atos erráticos do goleiro do Flamengo deixa pistas pelas quais não precisamos esperar que a polícia desvende inteiramente para saber quem foi o mandante do crime. Basta observar a conjuntura do caso.
Um crime premeditado e sem sombra de dúvida passional. Bruno é o provável algoz e responsável pela morte da ex-amante Eliza Samudio. O caso, tão explorado pela mídia - sobretudo televisiva - fez-me lembrar de uma reportagem de capa da revista Veja publicada no ano passado. A matéria relatava como a fama e o dinheiro invadem a vida dos grandes jogadores do esporte mais fantástico do mundo e os faz pisar na bola com tamanha facilidade.
Vamos ao raio-x de cada um. Bruno Fernandes é um jovem goleiro de quem os psicólogos desconfiam ser um psicopata. Começou a carreira em Minas Gerais, onde foi abandonado pela mãe ainda criança. Morador de favela, família desestruturada, emocional inconsistente. Eliza Samudio saiu de casa muito nova atrás de fama. Beliscava jogadores para ganhar os holofotes. Sonhadora, apaixonada e inconsequente. Também abandonada pela mãe aos 5 meses de idade, cresceu sem um importante arquétipo de valores.
Um dia os dois se encontraram. Nasceu um filho fora do casamento do goleiro. O ato é decorrente de uma rotina nada inócua do mundo futebolístico: festinhas regadas a bebida alcoólica, prostitutas e drogas. Se houvesse uso da liberdade, haveria escolha pela contenção - diria Betty Milan. Não é preciso ser um gênio para saber como a história poderia terminar. Eliza seria apagada, vítima de um crime cruel - depois de morta, teria pedaços do corpo arremessados a rottweilers.
O fato é que os telejornais reverberam incansavelmente fatos policiais que tocam o emocional do telespectador. Este, por sua vez, passa a viver uma espécie de histeria coletiva em casos como esse. Quem dera se a imprensa, sobretudo televisiva, se debruçasse com tamanha contudência sobre outros assuntos de interesse humano: meio ambiente, política, história das sociedades, conflitos étnicos. Certamente, teríamos um povo muito mais interessado e crítico.
Me passa na cabeça que a imprensa jamais poderia sair-se neutra e incólume na cobertura de um caso desses. Ocorre que me questiono incansavelmente sobre a validade dos critérios noticiosos utilizados. Por que tamanha insistência em pautas policiais, por que tanto tempo gasto para se esmiuçar a vida e os atos criminosos dos personagens? O fato foi uma barbárie que toca a psique individual, mas enquanto gastamos tempo demais expondo a violência alheia, a sociedade fica amiúde distanciada do que se passa na sucessão eleitoral do país, por exemplo, fato que mexe indistintamente com nossa vida coletiva.
Perguntei à minha tia Gercy, que é delegada aposentada, por que a televisão gosta tanto assim de fatos policiais. A resposta? "Ela vive disso!". Mas não é porque vive disso que se pode tirar do telespectador a consciência crítica do que quer e precisa ver. Alguém já lhe perguntou se ele se sente tão atraído e fascinado assim pelo crime? O silêncio e a omissão também são um erro. E cada vez que a TV o pratica, tira de seu interlocutor a capacidade de discernir.
Ao caso, faltam as provas cabais para se incriminar o goleiro. E que ele pague pelo que tiver feito. À imprensa, como um todo, que se dobre à tarefa de aprender mais uma vez como um caso de violência pode ser coberto a partir de nuances mais responsáveis. Um bom começo seria abordar o problema como um mal crônico da segurança pública brasileira e da falta de proteção à mulher. Deste modo funcionaria como uma caixa de ressonância metafísica aversa ao sensacionalismo.
Falta a mídia mostrar também que Eliza não é de todo uma vítima. É, pelo que tudo indica, mais uma aproveitadora que tentou o golpe da barriga para satisfazer necessidades profundas de um inconsciente que tanto pulsava de desejos perigosos desde a infância. O final de sua vida já era digno de um enredo previsível. Mas este aspecto ficou omisso, uma lacuna implícita no discurso jornalístico. A sentença de Bruno cabe à Justiça decidir. Contudo, quem poderá decidir pela consciência do telespectador que a tudo assiste?
Um crime premeditado e sem sombra de dúvida passional. Bruno é o provável algoz e responsável pela morte da ex-amante Eliza Samudio. O caso, tão explorado pela mídia - sobretudo televisiva - fez-me lembrar de uma reportagem de capa da revista Veja publicada no ano passado. A matéria relatava como a fama e o dinheiro invadem a vida dos grandes jogadores do esporte mais fantástico do mundo e os faz pisar na bola com tamanha facilidade.
Vamos ao raio-x de cada um. Bruno Fernandes é um jovem goleiro de quem os psicólogos desconfiam ser um psicopata. Começou a carreira em Minas Gerais, onde foi abandonado pela mãe ainda criança. Morador de favela, família desestruturada, emocional inconsistente. Eliza Samudio saiu de casa muito nova atrás de fama. Beliscava jogadores para ganhar os holofotes. Sonhadora, apaixonada e inconsequente. Também abandonada pela mãe aos 5 meses de idade, cresceu sem um importante arquétipo de valores.
Um dia os dois se encontraram. Nasceu um filho fora do casamento do goleiro. O ato é decorrente de uma rotina nada inócua do mundo futebolístico: festinhas regadas a bebida alcoólica, prostitutas e drogas. Se houvesse uso da liberdade, haveria escolha pela contenção - diria Betty Milan. Não é preciso ser um gênio para saber como a história poderia terminar. Eliza seria apagada, vítima de um crime cruel - depois de morta, teria pedaços do corpo arremessados a rottweilers.
O fato é que os telejornais reverberam incansavelmente fatos policiais que tocam o emocional do telespectador. Este, por sua vez, passa a viver uma espécie de histeria coletiva em casos como esse. Quem dera se a imprensa, sobretudo televisiva, se debruçasse com tamanha contudência sobre outros assuntos de interesse humano: meio ambiente, política, história das sociedades, conflitos étnicos. Certamente, teríamos um povo muito mais interessado e crítico.
Me passa na cabeça que a imprensa jamais poderia sair-se neutra e incólume na cobertura de um caso desses. Ocorre que me questiono incansavelmente sobre a validade dos critérios noticiosos utilizados. Por que tamanha insistência em pautas policiais, por que tanto tempo gasto para se esmiuçar a vida e os atos criminosos dos personagens? O fato foi uma barbárie que toca a psique individual, mas enquanto gastamos tempo demais expondo a violência alheia, a sociedade fica amiúde distanciada do que se passa na sucessão eleitoral do país, por exemplo, fato que mexe indistintamente com nossa vida coletiva.
Perguntei à minha tia Gercy, que é delegada aposentada, por que a televisão gosta tanto assim de fatos policiais. A resposta? "Ela vive disso!". Mas não é porque vive disso que se pode tirar do telespectador a consciência crítica do que quer e precisa ver. Alguém já lhe perguntou se ele se sente tão atraído e fascinado assim pelo crime? O silêncio e a omissão também são um erro. E cada vez que a TV o pratica, tira de seu interlocutor a capacidade de discernir.
Ao caso, faltam as provas cabais para se incriminar o goleiro. E que ele pague pelo que tiver feito. À imprensa, como um todo, que se dobre à tarefa de aprender mais uma vez como um caso de violência pode ser coberto a partir de nuances mais responsáveis. Um bom começo seria abordar o problema como um mal crônico da segurança pública brasileira e da falta de proteção à mulher. Deste modo funcionaria como uma caixa de ressonância metafísica aversa ao sensacionalismo.
Falta a mídia mostrar também que Eliza não é de todo uma vítima. É, pelo que tudo indica, mais uma aproveitadora que tentou o golpe da barriga para satisfazer necessidades profundas de um inconsciente que tanto pulsava de desejos perigosos desde a infância. O final de sua vida já era digno de um enredo previsível. Mas este aspecto ficou omisso, uma lacuna implícita no discurso jornalístico. A sentença de Bruno cabe à Justiça decidir. Contudo, quem poderá decidir pela consciência do telespectador que a tudo assiste?