sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Como eles pensam


Ouça os dois lados, os dois mais fortes concorrentes. Não basta. Isso não será suficiente para ajudar a prever qual será o resultado do enfrentamento político de outubro. Não há previsão. Não há certezas. Não há vidente que acerte. Eleição se decide nas urnas.

Digo isso porque se formos pelo que dizem as pesquisas, não há dúvidas. Todas apontam que Marconi Perillo será o vencedor, talvez em primeiro turno. Entretanto, pesquisas não dizem tudo. Em Goiás, Marconi virou em 1998. Era um desconhecido. Apresentou-se como alternativa, enfrentou Iris Rezende, superou as expectativas dos ques não acreditavam. Venceu. Em 2006, a história se repetiu com seu sucessor. Alcides Rodrigues foi eleito.

Ultimamente, tenho me preocupado muito mais em ouvir do que em falar. Assim ganho muito, e muito me acrescenta. Nem sempre as fontes oficiais são as melhores. Há quase um mês, sentei ao lado do meu carona enquanto esperávamos o momento da partida. Muito experiente com campanhas, ele me dizia que a eleição é de Iris.

A fonte me contou que o presidente Lula encomendou uma pesquisa no início do pleito em que Iris aparecia como favorito a ganhar a eleição. Ele me disse que numa disputa eleitoral, a primeira pessoa a quem você precisa convencer é você mesmo. Só assim conseguirá convencer os outros da escolha que deseja que eles façam.

O rapaz me disse ainda que sente a energia da população em cada cidade que passa, onde o ex-prefeito de Goiânia é sempre recebido com alegria. Ele não acredita nos dados das pesquisas divulgadas pela imprensa. Prefere acreditar na de Lula. E não tem dúvidas de que Lula será uma peça fundamental para ajudar Iris a angariar votos.

Fiquei impressionado com a análise política dele. Realmente mostrou sabedoria. A situação deixou claro para mim o quando o tabuleiro político é altamente instável. Em eleições, não há garantias de vitória.

Quando encerrávamos a conversa, ele me perguntou se havia ficado boquiaberto com o que me contou. Ao responder afirmativamente à pergunta, ele me disse: "Thiago, tudo o que digo, é porque estou dentro da cabeça dos líderes. É assim que eles pensam!".

Apesar de me impressionar com a excelência da análise sobre o quadro eleitoral, ele tocou em algo excêntrico. E foi assim que logo conclui que, da mesma forma que Iris e seus correligionários estão certos de que as urnas estarão a seu favor, assim também marconistas e vanderlistas devem acreditar piamente na própria vitória. Se perguntarmos, cada um dará mil explicações apontando suas certezas. Porque é assim que eles pensam. Convencem-se a si mesmos, enquanto as dúvidas e incertezas permanecem na sombra, como se não existissem. E é por isso que quando o barco vira e as previsões não se confirmam, o choque os derruba subtamente.

domingo, 22 de agosto de 2010

Está vindo?

Tomo a liberdade para postar a coluna de Míriam Leitão publicada no dia 22 de agosto no jornal O Globo. O texto é excelente e as ideias são inspiradoras!


Está vindo?

O torpedo: “vocês estão vindo?” Estávamos indo, mas atrasados, por isso apressamos o passo até o Instituto Moreira Salles. Lá, em uma fria manhã de sábado, mergulhamos no maravilhoso documentário de Estevão Ciavatta sobre Ademar Casé. Ele não me sai da cabeça desde então, por isso me prometi rever quando for lançado no dia 3 de setembro.

O cineasta e documentarista trabalhou durante 10 anos a partir dos arquivos que recebeu da família Casé sobre Ademar, o avô da Regina. É uma história de mobilidade social, com tudo o que há de emocionante em vidas assim, mas é também o relato do começo da radiodifusão no Brasil. O primeiro programa do rádio brasileiro foi o do Casé. Revelou cantores que estão na história da música brasileira, inventou linguagens, fez o primeiro jingle, montou o primeiro cast, desbravou a novidade. Vendo o documentário, combati a ignorância sobre fatos que deveria saber.

Enquanto acompanhava o ágil, denso e leve documentário, fiquei pensando em quanto é breve o tempo. Nos primeiros anos de 1920 ele chega ao Rio de Janeiro, consegue inicialmente vender aparelhos de rádio às famílias — o hardware — e depois, nos anos 30, inventa uma linguagem nova para aquele veículo, o software. Tudo isso começou há menos de 90 anos. Antes de sair de casa, tinha me comunicado com um amigo no Cazaquistão que ouve meus comentários da CBN, em podcasts baixados no seu iPod diretamente da iTunes store. Isso é o presente. Do futuro, eu ouviria falar nos dias seguintes, num encontro em São Paulo: o Digital Age 2.0.

Pense rapidamente o que foi essa trajetória. Do rádio rudimentar, em que Casé inventava programas e Roquete Pinto antevia o futuro das comunicações, ao que se vive hoje. Na história da humanidade, 90 anos representam um cisco, um nada. O rádio, inclusive, sobreviveu a todos os vaticínios e é contemporâneo de seres nem imaginados anos atrás. O futuro nos trará novas surpresas; algumas podem estar entre nós e ainda nem entendemos.

Diante dessa rapidez do tempo, a aflição com certos atrasos brasileiros aumenta. Uma gigantesca distância separa o Brasil de outros países de comunicação mais rápida e tecnologia mais avançada. Uma enorme distância separa brasileiros dos dois lados da fronteira digital.

O Programa Nacional de Banda Larga (PNBL) foi desenhado para servir de peça de propaganda. Foi posto no papel muito tarde, e ainda não saiu do papel. Deveria se discutir como incluir rapidamente os brasileiros na era digital, mas o tema é tratado com a superficialidade das mensagens eleitorais. Ainda que fosse vencida essa distância digital, e oferecida uma internet rápida ligando todo o país, não seria suficiente. Para entrar no mundo novo das comunicações, que começou na era do rádio, o Brasil precisa vencer outro atraso ainda mais antigo, ainda mais decisivo: o da educação.

Não vou chover no molhado em domingo de inverno. Todo brasileiro sabe que estamos atrasados na educação em relação a países mais e menos desenvolvidos que nós. Já me acostumei a sentir inveja da Coreia com seu sistema educacional construído em 40 anos de tenacidade e senso de urgência. Duro é sentir inveja do Uruguai, onde os alunos estudam em notebooks e as escolas estão informatizadas.

O mais importante não é olhar o que não fizemos. Não fizemos, e pronto. Não se conserta o passado. O problema sério mesmo é o futuro. O IDEB (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica) tem como meta chegar a 2021 com o desempenho dos primeiros anos do ensino fundamental saindo dos atuais 4,6 para 6,0; nos últimos anos do fundamental, de 4,0 para 5,5; no ensino médio, de 3,6 para 5,2. De um a dez, o Brasil tem como meta atingir a nota média daqui a onze anos. Mais escandaloso: a meta para a escola pública é chegar a 2021 a um nível inferior do que a escola privada estava em 2005. Assim: o objetivo que se busca para daqui a onze anos é o ensino público dos primeiros anos do fundamental chegar a 5,8; quando em 2005 o ensino privado atingiu 5,9. No ensino médio, a meta é 4,9 no setor público, menos do que os 5,6 do ensino privado em 2005.

Se você atravessou todos esses números e me acompanha ainda no artigo pode estar se perguntando: o que o genial produtor, radialista, jornalista e empresário Ademar Casé tem a ver com tudo isso? Que associação estranha de ideias levou ao IDEB?

A palavra que junta tudo é ousadia. Se o Brasil não tiver ousadia nos suas metas na educação não conseguirá vencer a exigência preliminar para entrar com sua população no vertiginoso mundo de hoje em que a comunicação não é tema apenas dos comunicadores. Ela atravessa todas as outras áreas; muda a economia, a política, a sociedade, a educação, as relações afetivas. Não educar é não incluir, não conectar. É deixar à deriva parte da população.

Casé saiu da pobreza extrema e virou um homem rico; saiu do anonimato para a celebridade. Mas carregava uma certa tristeza de não ter estudado o que gostaria de ter estudado. Já famoso, contratou um professor para na hora do almoço, na sua mansão em Copacabana, ensinar inglês a ele e aos filhos.

Fiquei achando que seu arrojo de se lançar no mundo da tecnologia desconhecida, atravessar fronteiras sociais e, depois do sucesso, continuar aprendendo traz lições para o Brasil atual. Saí da sala de projeção achando que não tinha visto apenas uma bela história da Era do Rádio, mas um enredo com duas chaves para o futuro: ousadia e tenacidade. Quis mandar um torpedo para o país: “Está vindo? A sessão vai começar. Não se atrase mais.”

domingo, 8 de agosto de 2010

O discurso dos candidatos


A Band promoveu, na última quinta-feira (5), o primeiro debate entre os candidatos a presidente da República nas eleições 2010. Apesar das expectativas que tínhamos até então, o diálogo possível entre os quatro principais concorrentes mostrou que, quanto à retórica, nenhum deles está preparado. Não houve vencedor.

Dilma Rousseff (PT) chegou sorridente, bem vestida com um amarelo-claro bastante simpático, demonstrou elegância na postura e visual. Entretanto, tão logo se iniciou a disputa verbal, a petista deu indícios de que estava nervosa e apreensiva. Seus pensamentos muitas vezes perderam-se em si mesmos, expressando ideias inconclusas e de pouco significado. Ficou encurralada ao tentar respondar a pergunta de Serra sobre a pífia ajuda que o governo tem prestado às APAEs. Além disso, cometeu deslizes linguísticos sérios, a exemplo do "seje", num emprego verbal inadequado. Mas foi melhor do que imaginávamos. Dilma não é tão ingênua assim, conhece as ações dos governos Lula e FHC e demonstrou autoria, não sendo mera sombra projetada a partir da imagem do popular presidente brasileiro.

José Serra (PSDB) mostrou-se, assim como Dilma, prolixo. Estourou o tempo de fala inúmeras vezes, esqueceu-se das perguntas a ele dirimidas e fez cara de desinformado quando perguntado pela adversária petista sobre o que achava do programa de eletrificação rural Luz para Todos. De Serra esperávamos respostas contundentes, e, é claro, mais ataques a Dilma. Apesar da prodigiosa experiência administrativa e política que tem, ateu-se a comentários sobre a questão da saúde no Brasil, sendo chamado comicamente de hipocondríaco por Plínio de Arruda Sampaio (Psol). Criticou a péssima infraestrutura dos aeroportos brasileiros, dando destaque ao caótico Santa Genoveva de Goiânia, mas não esclareceu nem contemplou os demais projetos de seu eventual governo.

Marina Silva (PV) utilizou-se da palavra de maneira afetuosa, como sempre o faz. Seu discurso é cativante, sério, emocionado. Recordou sua alfabetização por meio do mobral aos 16 anos, falou, como sempre, de sua proposta de desenvolvimento sustetável para a economia do País, e da oportunidade que teve ao ser situação e oposição. Contudo, permaneceu no elogio ao governo petista por várias vezes seguidas, arrancando também de Plínio de Arruda comentários irônicos - "Seu discurso é o mesmo da Dilma. Achei que fosse do governo Lula também", disse o candidato do nanico Psol, deixando Marina desconcertada.

Plínio foi engraçado. Falou que, assim como Dilma e Serra faziam blocão no pergunta-responde, o mesmo faria entre ele e Marina. Iniciou o debate já dizendo sentir-se honrado de participar, já que o povo brasileiro deveria conhecer não só os três principais candidatos. Centrou-se na defesa da distribuição de renda, valendo-se de um radicalismo inoportuno e sem detalhar suas ideias, o que soa como despreparo.

O debate, enfim, foi morno, pode-se concluir. Não houve baixaria, mas também não se concretizou como uma discussão de alto nível, dado que temos candidatos experientes para assumir o cargo de maior responsabilidade de nação. Todos os presidenciáveis foram prolixos: falaram muito, mas a mensagem não foi suficientemente inteligível. Cometeram deslizes gramaticais, mostrando parcial inoperância no que tange ao domínio da Língua Portuguesa. Mas, pior que isso, deixaram os telespectadores à deriva...

Por cotejo, poderia dizer que os quatro elaboraram discursos vazios de conteúdo. Agora, resta esperar para ver como será o próximo debate, se estarão com o discurso afinado, usando argumentos convincentes para dar prova de que conseguem articular com eficiência a linguagem. Aquele que se serve do discurso de maneira adequada, imprime para si uma marca ideológica do lugar que ocupa. Só dessa forma um candidato tem sua proposta de governo bem interpretada. Com traquejo político, discurso lúcido e simpatia, poderá angariar mais votos.

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Para onde vamos?


Para onde vamos? Esta foi a pergunta que me fiz enquanto conversava longamente com Consuelo. Nos encontramos para tratar de "negócios". Não obstante, quando nos cruzamos, não tem jeito de deixar a conversa técnica fluir sem que se fale de outros assuntos. E o assunto que imperava se chama tecnologia.


Consuelo é um dos poucos profissionais que me faz parar por alguns momentos e repensar o ditado popular do "é vivendo e aprendendo". Para significar melhor, diria que as coisas se tornam mais fáceis de ser compreendidas quando voltamos ao passado tendo a experiência do presente em mente. Quando ela fala, mergulho num profundo silêncio para ouvir.

Recentemente houve uma onda de demissões numa emissora de TV de Goiânia. Tentei compreender o fato por sua lógica, a lógica do capital: quanto mais tecnologia, menos gente. Mas isso é pouco e insuficiente. Consuelo me disse coisas de extrema valia que eu mesmo não pensaria com tamanha facilidade se apenas enclausurasse ideias nesta mente solitária.

Segundo ela, o jornalismo como um todo, especialmente na TV, está ficando cada vez mais multifuncional. Daí prevalece a lei do mais forte: os que se adaptam com facilidade, permanecem; os que apresentam dificuldades em lidar com o que é novo, cedem espaço para os jovens da geração Y. Tudo por um simples motivo - quem vale-se de programas de informática do calibre do Avid/Inews precisa estar preparado para pensar no compasso do mundo virtual.

O que ela quis dizer com isso? Que da mesma forma que nossa leitura tem mudado com a ascensão da internet e se tornado não-linear, também devemos nos preparar para aprender a editar e construir vídeos que não sigam o ponto a ponto, a lógica encadeada, o passo a passo. Não há razão para isso, já que "posso começar uma história do final". Que será dos sistemas filosóficos de indução e dedução? Talvez a morte ou, no mínimo, a estagnação.

É a segunda vez que essa história se repete. Consuelo me disse posteriormente algo que a Carol (Zafino) já havia me adiantado: nossos raciocínios não são uma constante, não se constroem por pontos sobrepostos, mas sim do contrário, como constatou Pierry Lévy. É preciso aprender a pensar como máquinas. Em um documentário que orientou, o grupo de TCC de Consuelo prezou por essa nova dinâmica da linguagem - os alunos utilizaram cerca de três blocos de vídeo em movimento na tela, simulando a mesma dinâmica das notícias dos sites as quais nossos olhos já se adaptaram a ler.

É um pensamento denso. Me deixou impressionado. Em poucos instantes lhe perguntei de onde emanava aquele entendimento - de algo lido ou de sua própria observação? Da observação acrescida de alguns estudos já publicados sobre o assunto, me respondeu. E a sensação que tive imediatamente foi a mesma que sinto cada vez que me ponho em diálogo com pessoas sábias. Senti que havia aprendido, que é necessário parar para observar o mundo e encontrar respostas prováveis ao futuro que vai chegar, que só construo meu presente a partir do passado que vivi e que me faz reavaliar e reaprender.

Uma pergunta me veio à cabeça: os jornais impressos, então, irão acabar? Esta não a fiz. Deixei para pensar por mim mesmo. Quem sabe, a resposta será uma negativa. Num artigo de domingo, Míriam Leitão (a quem admiro e gosto de ler) dizia que o livro não é só aquele formato que persiste desde Gutemberg, mas sim seu conteúdo somado ao sentimento afetivo e ao vínculo que com ele criamos. Sua conclusão foi de que o livro como o conhecemos pode até acabar no que tange ao formato, mas não no que diz respeito ao seu conteúdo e à prática com que o utilizamos.

Cada vez que ouço Consuelo minha cabeça se abre. Fiquei mais curioso ainda para ler o recomendado livro "Tudo que é sólido desmancha no ar", de Marshall Berman (infelizmente, ainda não tive tempo). Isso prova que não aprendo nada sozinho, não posso encerrar meus pensamentos em mim mesmo. Ainda tenho muito para refletir e crescer. Só no diálogo e na observação poderei, por conjectura, tentar adivinhar para onde vamos e em que direção caminhamos rumo ao mundo virtual.

domingo, 11 de julho de 2010

O crime da mídia


Atemo-nos aos fatos. O caso Bruno é mais um capítulo de novela o qual todo mundo sabia como iria terminar. A cadência de atos erráticos do goleiro do Flamengo deixa pistas pelas quais não precisamos esperar que a polícia desvende inteiramente para saber quem foi o mandante do crime. Basta observar a conjuntura do caso.

Um crime premeditado e sem sombra de dúvida passional. Bruno é o provável algoz e responsável pela morte da ex-amante Eliza Samudio. O caso, tão explorado pela mídia - sobretudo televisiva - fez-me lembrar de uma reportagem de capa da revista Veja publicada no ano passado. A matéria relatava como a fama e o dinheiro invadem a vida dos grandes jogadores do esporte mais fantástico do mundo e os faz pisar na bola com tamanha facilidade.

Vamos ao raio-x de cada um. Bruno Fernandes é um jovem goleiro de quem os psicólogos desconfiam ser um psicopata. Começou a carreira em Minas Gerais, onde foi abandonado pela mãe ainda criança. Morador de favela, família desestruturada, emocional inconsistente. Eliza Samudio saiu de casa muito nova atrás de fama. Beliscava jogadores para ganhar os holofotes. Sonhadora, apaixonada e inconsequente. Também abandonada pela mãe aos 5 meses de idade, cresceu sem um importante arquétipo de valores.

Um dia os dois se encontraram. Nasceu um filho fora do casamento do goleiro. O ato é decorrente de uma rotina nada inócua do mundo futebolístico: festinhas regadas a bebida alcoólica, prostitutas e drogas. Se houvesse uso da liberdade, haveria escolha pela contenção - diria Betty Milan. Não é preciso ser um gênio para saber como a história poderia terminar. Eliza seria apagada, vítima de um crime cruel - depois de morta, teria pedaços do corpo arremessados a rottweilers.

O fato é que os telejornais reverberam incansavelmente fatos policiais que tocam o emocional do telespectador. Este, por sua vez, passa a viver uma espécie de histeria coletiva em casos como esse. Quem dera se a imprensa, sobretudo televisiva, se debruçasse com tamanha contudência sobre outros assuntos de interesse humano: meio ambiente, política, história das sociedades, conflitos étnicos. Certamente, teríamos um povo muito mais interessado e crítico.

Me passa na cabeça que a imprensa jamais poderia sair-se neutra e incólume na cobertura de um caso desses. Ocorre que me questiono incansavelmente sobre a validade dos critérios noticiosos utilizados. Por que tamanha insistência em pautas policiais, por que tanto tempo gasto para se esmiuçar a vida e os atos criminosos dos personagens? O fato foi uma barbárie que toca a psique individual, mas enquanto gastamos tempo demais expondo a violência alheia, a sociedade fica amiúde distanciada do que se passa na sucessão eleitoral do país, por exemplo, fato que mexe indistintamente com nossa vida coletiva.

Perguntei à minha tia Gercy, que é delegada aposentada, por que a televisão gosta tanto assim de fatos policiais. A resposta? "Ela vive disso!". Mas não é porque vive disso que se pode tirar do telespectador a consciência crítica do que quer e precisa ver. Alguém já lhe perguntou se ele se sente tão atraído e fascinado assim pelo crime? O silêncio e a omissão também são um erro. E cada vez que a TV o pratica, tira de seu interlocutor a capacidade de discernir.

Ao caso, faltam as provas cabais para se incriminar o goleiro. E que ele pague pelo que tiver feito. À imprensa, como um todo, que se dobre à tarefa de aprender mais uma vez como um caso de violência pode ser coberto a partir de nuances mais responsáveis. Um bom começo seria abordar o problema como um mal crônico da segurança pública brasileira e da falta de proteção à mulher. Deste modo funcionaria como uma caixa de ressonância metafísica aversa ao sensacionalismo.

Falta a mídia mostrar também que Eliza não é de todo uma vítima. É, pelo que tudo indica, mais uma aproveitadora que tentou o golpe da barriga para satisfazer necessidades profundas de um inconsciente que tanto pulsava de desejos perigosos desde a infância. O final de sua vida já era digno de um enredo previsível. Mas este aspecto ficou omisso, uma lacuna implícita no discurso jornalístico. A sentença de Bruno cabe à Justiça decidir. Contudo, quem poderá decidir pela consciência do telespectador que a tudo assiste?


domingo, 4 de julho de 2010

Desconstruir para reestruturar


Era uma manhã de quinta-feira quando entrei na redação ironicamente mal informado. Um pouco irritado com a resposta negativa aos recursos interpostos, comentei com o Renato a falta de bom senso da banca. Em resposta, ele me disse - independentemente daquilo - que eu havia passado. De fato, meu nome estava na lista, minha mãe chorava de emoção, meus familiares me ligavam para louvar o resultado. Eu, empolgado, não havia pensado que o barco que ía de vento em popa poderia enfrentar uma tempestade inesperada e virar. E foi o que, de fato, me ocorreu.

Um dia se passou, as dúvidas aumentaram e na sexta-feira subsequente fui informado de que a alegria duraria pouco. Subitamente, entreguei-me a uma tristeza infinita, emagreci o que me custara ganhar em massa magra e a dor de cabeça veio como um rompante. Faltava a nota da redação. A sentença não me deixava dúvidas de que as horas à fio gastas durante um mês inteiro teriam se evaporado. Fui mal avaliado, fui julgado com ausência de idoneidade, não fui compreendido naquela tentativa.

Por analogia, imagine você sentado na sacada do seu apartamento vendo o pôr-do-sol. O esplendor e a beleza tornam-se confundíveis com seu significado. As portas cerram-se mais cedo, a claridade e a luz dão espaço à escuridão, as pessoas cansadas abrigam-se em suas casas numa mudez intermitente, e assim o dia termina. O dia morre, é a morte do dia. E assim também morriam em mim todas as esperanças que tinha de ser aprovado tão precocemente em um concurso tão logo recém-formado. Morriam em mim tantos sonhos, tantos dias de espera, tantos projetos... e eu me tornava opaco e vazio, estúpido e inválido, triste e desamparado. Enquanto isso, minha mãe me cercava de frases de efeito, que confesso, mais me irritavam do que contribuíam para a autoestima. Além disso, continuava a dizer que não acreditava em milagres, que Deus não vê meus esforços, que não é justo, que não havia me premiado com um resultado condizente. A vontade que eu tinha era de me debruçar sobre a cama, me cobrir com um cobertor bem quente e de lá não mais sair. Me senti pequeno, frágil, simples. Um ser tristonho cujo ego havia se despedaçado naquilo que mais o fazia forte, substância de ferro. Tia Celina me dizia para não me deixar abater. Maria Anísia então se mostrou uma das amigas mais leais que já tive. No e-mail, ela alegava que fui vítima porque sai do lugar-comum, porque escrevo para pessoas de um nível cultural mais elevado, e que, portanto, não fui compreendido.

Uma semana se passou e foi então que me veio à consciência que o tempo é imperativo. Que o tempo tudo suporta, porque tudo passa. Que só o tempo - com suas pausas e silêncios, com sua morosidade que tanto me aflige - é que é capaz de curar as feridas e me recobrar os sentidos. Eu já não acreditava, mas esta foi a maior prova que tive até hoje de como é possível me reestruturar. É que havia me esquecido de como é possível eu me inventar de novo. De como tenho a possibilidade de criar, de curar os problemas do presente por meio de um silêncio cortante, porém vivo. Isso me fez lembrar de quantas perdas e ganhos tenho sofrido na vida. De quantas pessoas passaram por meu caminho e se despediram de maneira tão rápida - Lara, Vinicius, Sabrina... E eu, que tanto achava que não ia aguentar, acabei suportanto... Acabei fazendo disso tudo uma lição tal qual aprendi em Eclesiastes. Bastava apenas respirar. E dizer pra mim mesmo que nada é insuperável porque a vida é um processo, um rio que flui sem esperar que eu corrija meus erros e redirecione o futuro. Eu chorava pelo Brasil que perdeu o hexa e por mim mesmo nesse concurso. Porque esse problema é um vale cuja cabeceira me devora, mas de cuja profundidade consigui emergir. E ainda continuo vivo, pronto para a próxima queda e também pra me levantar.

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Para aquecer


Para aquecer os dias frios da data iminente, vamos esquentar um pouco o coração com a suavidade da poesia-música. Oxalá fosse eu o autor!


Ao que vai chegar

Voa, coração
A minha força te conduz
Que o sol de um novo amor em breve vai brilhar
Vara, escuridão
Vai onde a noite esconde a luz
Clareia seu caminho e ascende seu olhar
Vai onde a aurora mora
E acorda um lindo dia
Colhe a mais bela flor
Que alguém já viu nascer
E não esqueça de trazer força e magia
O sonho e a fantasia
E a alegria de viver

Voa, coração
Que ele não deve demorar
E tanta coisa a mais quero lhe oferecer
O brilho da paixão
Pede a um estrela pra emprestar
E traga junto a fé
Num novo amanhecer
Convida as luas cheia, minguante e crescente
E de onde se planta a paz,
Da paz quero a raiz
E uma casinha lá
Onde mora o sol poente
Pra finalmente a gente
Simplesmente ser feliz

(Toquinho)